Amazon no Reino Unido coloca trabalhadores à beira da doença mental

Os trabalhadores da Amazon no Reino Unido enfrentam sérios riscos de “doença física e mental”, sustenta uma reportagem da BBC. A investigação para o programa Panorama levou um jovem jornalista a candidatar-se a uma vaga nos armazéns de distribuição da empresa no País de Gales, onde fez filmagens dos seus turnos durante a noite. A Amazon garante que a segurança dos seus empregados é uma prioridade da empresa.

Um repórter da televisão britânica candidatou-se a um dos lugares da Amazon nos armazéns da empresa em Swansea, segunda cidade do País de Gales. Uma vez infiltrado nos interstícios do gigante de vendas online, fez filmagens dos seus turnos. Foi esse trabalho de infiltrado que esteve na origem da investigação do programa da BBC Panorama.

O repórter trabalhou em turnos nocturnos de dez horas e meia, vendo-se obrigado a levantar encomendas num armazém que comporta uma área superior a 74 mil metros quadrados. De acordo com os seus cálculos, o trabalho obrigava-o a percorrer quase 18 quilómetros por noite: “Estou completamente destruído. O que me incomoda mais são os pés”, afirmava Adam Littler, o jornalista de 23 anos, após um dos turnos.

Mas a sua câmara oculta não registou apenas as exigências físicas da função. Cada tarefa que designada vinha acompanhada das condições que deveria cumprir, mais concretamente dos limites impostos para a sua conclusão.

Uma ordem indicava-lhe que objeto deveria ir buscar e transportar no seu trolley; mas a mesma voz mecânica determinava os segundos que tinha para cumprir a tarefa e iniciava uma contagem decrescente.

Se o tempo fosse ultrapassado, o scanner que tinha consigo apitava: “Somos máquinas, somos robots, pegamos no scanner e andamos com ele, mas mais valia que estivesse incorporado no nosso corpo”, sublinhou Adam Littler.

Os procedimentos não terminavam aí. Os dados eram depois analisados por um supervisor que podia determinar a instauração de um inquérito disciplinar sempre que o trabalhador não cumprisse os mínimos estabelecidos.
“Tudo o que há de mau”

Estes aspetos das funções do repórter da BBC foram depois mostrados a Michael Marmot, médico especialista em saúde do trabalho e uma referência na área do stress laboral.

O médico, que já esteve em Portugal para uma conferência sobre estas matérias, considera que as condições de trabalho que pôde testemunhar a partir das filmagens clandestinas no armazém da Amazon em Swansea “são tudo o que há de mau”, podendo levar a graves problemas mentais dos trabalhadores.

“As características deste tipo de trabalho, o que vemos é um elevado risco de doença mental e de doença a nível físico”, afirmou Michael Marmot, sublinhando essa “prioridade colocada na eficiência a expensas da saúde e do bem-estar dos trabalhadores”.

Apesar desta análise, a Amazon sustenta que a sua principal preocupação é o bem-estar dos seus colaboradores.

No entanto, logo a nível legal, um especialista ouvido pela BBC defende que os turnos feitos durante a noite que sejam particularmente exigentes não podem comportar mais do que oito horas em cada 24. A empresa garante que tem aconselhamento legal para se manter dentro dos limites da legislação laboral.

Fonte: RTP

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